Gestação

Trecho de entrevista concedida por Marika e Décio, diretores do Stagium, à Oswaldo Mendes:

Os bailarinos participantes do programa Convite à Dança foram:
Marika Gidali, Geralda Araujo, Marina Helou, eu, Ivaldo bertazzo, Chu-Fa-Chins, Milton Carneiro e Sílvia Antunes, além de profissionais como Marilena Ansaldi, Ady Addor, Ruth Rachou, Sioma Fantauzzi, que lutavam pela sobrevivência da dança em São Paulo, desde a extinção do Ballet do IV Centenário.
Como não havia campo de trabalho para coreógrafos e bailarinos, queríamos prosseguir com o núcleo formado na TV Cultura.
Haviamos visto muitos grupos que se formavam realizando dois ou três espetáculos e se acabavam.
Ao fundar o Stagium o primeiro passo foi a descentralização da dança do eixo Rio-São Paulo, viajando, desde o princípio, por todos os estados brasileiros.
Nossa estréia na cidade de São Paulo se deu três meses após nossa estréia na cidade de Santos e de espetáculos em Minas Gerais, no Paraná e no interior do estado.
Com uma linguagem estética inovadora para a dança brasileira da época, surpreendemos o público por toda a parte onde nos apresentavamos.
Na capital, estreiamos no Theatro São Pedro, cercados de enorme espectativa.
Suprimimos a cortina da boca de cena, realizando exercícios preparatórios com o público entrando no teatro.
Não usávamos qualquer tipo de cenário (os meus figurinos e os de Marika, dos balés clássicos que havíamos dançado, agora serviam de cenário para o balé “Impressions”.
Os figurinos eram somente malhas e nada de lantejoulas ou brilhareco importado: o corpo falava por si só.
Quando a situação financeira ficava insuportavel, Marika pedia “socorro” (dinheiro emprestado) a Carlos Armando Forino que, trabalhando na agência do Banco Nacional da Praça Buenos Aires, nos salvava. Os figurinos eram fornecidos pelo Senhor Bela e Dona Elizabeth, pais de Marika, que tinham uma excelente loja de artigos de dança na Rua 7 de abril.
A grande dificuldade? Não sei. Nada nos impedia de continuar…
Logo no começo de nossas atividades, Paulo Autran nos aconselhou: “Não fiquem em são paulo esperando oportunidades para dançar. Sigam o exemplo do teatro, que atua Brasil afora”.
Estas frequentes viagens nos deram sustento nos primeiros tempos, e a fama do Stagium se alastrou como um furacão.
[Marika]
Com ou sem ajuda governamental, criamos alternativas para sobreviver.
A força do Stagium sempre foi o seu pensar.
[Décio]
Quando cheguei à São Paulo e vi o balé “O Infânticídio de Marie Farrar” percebi que aquilo não era teatro, não era dança, mas um novo e emocionante caminho a seguir.
O trabalho de Marika e do Ademar Guerra propunha uma linguagem nova, que eu gostaria de “falar” através da dança.
[Marika]
Portanto, isso de balé moderno, contemporâneo e outras vertentes perderam a razão de ser para mim, pois todos estes anos o Stagium andou na contra-mão.
[Oswaldo]
O diferencial do Stagium é que a técnica nunca foi um fim, mas uma maneira adequada de se dizer o que se tem para dizer – o problema é usar a técnica para não dizer nada.
[Marika]
A técnica na dança, para muitos, é um fim, mas não no Stagium.
[Oswaldo]
Se não se entender o que estava acontecendo na década de oitenta, não só na dança, mas na arte em geral, não se conseguirá entender a crítica feita ao Stagium. Foi o reinado do pós-moderno, que se resumia numa constante descoberta do modismo… o que o Stagium fez foi seguir o seu caminho.
[Décio]
Meus balés não estão nas prateleira das correntes modistas da dança. Prefiro muito mais ser um pouco “demodée” que demasiado “up-to-date”. sou muito desconfiado. Minhas viagens ao exterior me esclareceram muitas coisas. Vi espetáculos belíssimos, bailarinos formidáveis. Inútil imita-los. Vi muito teatro e dança certificando-me do caminho escolhido.
Nossa realidade e necessidades são outras.
A riqueza de nossa música, do nosso teatro, do nosso cinema e da nossa literatura me abriram as amarras, possibilitando-me criar um repertório com forte identidade latino-americana.
[Marika]
Mas fico me questionando, por que o stagium assusta as pessoas?
[Décio]
Assusta porque seu fazer é peculiar onde o “pensar” vem muito antes do fazer.
[Marika]
Mas veja, para estes jovens de 18 anos, entrar no universo do stagium sempre foi complicado, pois é como entrar na faculdade sem ter cursado o ensino fundamental.
Lembro-me que organizei uma viagem de Anápolis à Palmas, no Tocantins, em 1995, que poderia ter sido realizada de avião, mas decidi levá-los de ônibus para “sentirem” o brasil. Queria sensibilizá-los para remontar o balé Dança das Cabeças cujo tema retrata a perda de identidade dos migrantes nordestinos para as cidades do sul.
Antes de partir, avisei: “olhem, são 12 horas de viagem, não durmam o tempo todo. Observem, vivenciem”.