A ESTÉTICA DA VIOLÊNCIA NA DANÇA.
Meu primeiro trabalho sob a direção de ADEMAR GUERRA foi, em 1971, num dos programas da série CONVITE A DANÇA, na TV CULTURA de São Paulo.
Chamava-se FITAS VELHAS. Eram três histórias sobre poemas de Edwards Fields, traduzidos por Caiubi e adaptados para a dança pelo próprio Ademar: “Ela, a feiticeira”, com NUNO LEAL MAIA e CLARISSE ABUJAMRA, coreografado pela Clarisse; ” FRANKSTEIN”, coreogrado pela MARIKA GIDALI, com dois atores do musical HAIR, KACÁ e JOSÉ LUIS PENNA; e ” O SANGUE DA PANTERA”, que coreografei e dancei com a Marika.
FITAS VELHAS era antitudo. Não era teatro, não era dança e não tinha nada a ver com o que se fazia na televisão na época.
Em O SANGUE DE PANTERA, Ademar não usava música, apenas uma narração constante feita pelo ARMANDO BOGUS. Hoje revendo esse ballet observo que era puro “full-contact”, uma luta permanente, Marika e eu dançando subindo e descendo uma escada, nos jogando e sendo jogados com violência no chão.
Era, para a época, um espetáculo ousado e de ruptura com tudo. Muito do que se vê hoje na dança e no teatro já tínhamos feito, sob a direção do Ademar Guerra em ” O Sangue da Pantera”. Num certo sentido, estava antecipando em 20 anos essa estética da violência apresentada nos anos noventa como grande novidade na dança e no teatro.
O primeiro trabalho de Ademar que vi foi MARIE FARRAR, balé sobre o poêma de BRECHT que ele dirigiu com MARIKA e ARACI BALABANIAN.
Fiquei maravilhado.
Houve muita discussão para saber se aquilo era dança ou não, como se isso fosse importante.
A mesma discussão aconteceria anos depois, quando apresentamos nos Estados Unidos um balé também dirigido pelo Ademar, DONA MARIA PRIMEIRA, A RAINHA LOUCA. Mas desde Marie Farrar ficou claro para mim, a importância da presença de um diretor de teatro numa companhia de dança.
ENTREVISTA DE DÉCIO OTERO PARA O LIVRO DE OSWALDO MENDES:
“ADEMAR GUERRA: O TEATRO DE UM HOMEM SÓ” (EDITORA SENAC)
DE REPENTE,OS ATORES ESTAVAM DANÇANDO
No teatro, Ademar usava a dança nos ensaios para o ator descobrir e conhecer seu personagem.
Fazia laboratórios com os atores e aquilo, bem ou mal, era dança, era expressão corporal.
Ele dava uma motivação qualquer para os atores, que então começavam a se movimentar e a conhhecer seu corpo de uma forma que não conheciam – e de repente, sem perceber, eles estavam dançando.
Até OH, QUE DELÍCIA DE GUERRA!, todos os grandes espetáculos de teatro com dança que eu havia assistido eram a mesma coisa: parava tudo para entrar a dança. A ação era interrompida e as coreografias não tinham nada a ver com o resto.
Isso me incomodava e, acredito, incomodava também o Ademar.
Quando CLAUDIO PETRAGLIA me convidou para fazer a coreografia de “OH, QUE DELÍCIA DE GUERRA”!, Ademar, que não me conhecia, foi contra. Para ele, eu era apenas uma bailarina.
E o pessoal do teatro achava que toda bailarina era alienada – e era mesmo.
Ademar esperava que chegasse uma bailarina fazendo pontinhas e voltinhas. No início, nosso relacionamento foi um horror. Ele só percebeu que eu era diferente quando fiz a primeira coreografia, uma grande movimentação.
Viu que aquilo podia dar samba e foi me deixando ficar. Eu acompanhava todo o ensaio, não fazia só a minha parte, até porque sabia que se não acompanhasse não conseguiria fazer coreografias. Quando o espetáculo estreou, Ademar escreveu no programa que eu tinha sido sua assistente, o que me deixou orgulhosa. Na verdade, eu tinha feito assistencia de direção. A rigor, nunca fiz só coreografia nos espetáculos do Ademar.
ENTREVISTA DE MARIKA GIDALI PARA O LIVRO DE OSWALDO MENDES;
“ADEMAR GUERRA – O TEATRO DE UM HOMEM SÓ”, ( EDITORA SENAC).
A HARMONIA, CONQUISTA TÃO ÁRDUA, PARECIA TÃO SIMPLES
Eu conhecia Ademar de nome, como diretor de HAIR, pelas pessoas de teatro, que se referiam a ele como o homem que sabia a essência da direção teatral, da direção de ator, que conhecia dramaturgia profundamente. ” Vou falar com o Ademar” – isso eu ouvia em cada esquina de quem estava querendo fazer um trabalho qualquer que considerava importante. Eu já conhecia Antunes, Flávio Rangel, mas achava que seria mais complicado chegar perto do Ademar. Não sei por quê. Era como chegar perto do Mágico de Oz. Mais tarde eu me orgulhei de saber que ele tinha gostado muito da minha peça “CAMINHO DE VOLTA”. Aquilo foi marcante, porque ele era uma espécie de mito.
De cada duas palavras do Ademar, uma era sobre o Ballet Stagium.
Eu não entendia. A direção dele era visceralmente voltada para o ator, não tinha nada a ver com dança. No entanto, tinha. O seu trabalho de ator era uma coisa enxuta, seca. Quando assisti os espetáculos do Stagium que tinham a mão do Ademar, eu entendi.
Texto, ator, direção, era tudo uma busca de integração tão grande que acabava sendo quase dança.
Ele levou isso para o Stagium, para que a dança não fosse uma coisa meramente cinética ou estética no sentido apenas plástico, visual,que a dança não fosse apenas corpo cortando o espaço, mas que ela tivesse um sentido essencial. E aí estava o trabalho de ator, de dramaturgia e de direção do Ademar. Percebi que ele pensava a dança e o teatro com a mesma postura de entrega total e de busca de harmonia.
ENTREVISTA DE CONSUÊLO DE CASTRO PARA O LIVRO DE OSWALDO MENDES “ADEMAR GUERRA – O TEATRO DE UM HOMEM SÓ”. (EDITORA SENAC)
“NINGUÉM SABE QUEM EU SOU”´
A última vez que estive com o Ademar foi num barzinho na rua Augusta, onde ele ia se encontrar com um rapaz de São José dos Campos, cujo nome eu não sei.
Ademar tinha ido a São José falar de teatro, ensinar, agitar, fazer leitura de peças com o pessoal amador.
Ele tinha encentivado a leitura de uma peça de Otavio Frias Filho em São José dos Campos e esse rapaz veio conversar com o Ademar sobre a idéia de montar a tal peça.
Lá pelas tantas, o rapaz vira-se para o Ademar e diz, taxativo:
- Eu só dirijo a peça se você for meu assistente. Fiquei chocada. Quem era aquele cara para pedir para o Ademar ser seu assistente?
Será que ele sabia quem era ADEMAR GUERRA, tudo o que já tinha feito e a sua importância?
Quando o rapaz saiu da mesa por uns instantes, eu estourei:
- Ademar o que é isso? O que esse rapaz pensa que é? querer que você seja assistente dele? Ele sabe quem você é?
Ademar virou-se para mim, calmamente, rindo: – MARIKA, NINGUÉM SABE QUEM EU SOU! NINGUÉM ME CONVIDA PARA FAZER NADA. ELE PELO MENOS ESTÁ ME CONVIDANDO PARA SER SEU ASSISTENTE.
Com aquele cigarro sempre entre os dentes, ele ria, mas estava amargo. Muito amargo.
Esse foi o encontro final, o meu último encontro com o Ademar.
RELATO DE MARIKA GIDALI PARA O LIVRO DE OSWALDO MENDES:
ADEMAR GUERRA: O TEATRO DE UM HOMEM SÓ. ( Editora Senac )